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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Matisse em Baltimore, IV - The Matisse Stories de A. S. Byatt










Matisse em Baltimore, IV - The Matisse Stories de A. S. Byatt




       O último conto, "The Chinese Lobster", questiona o lugar de Matisse num mundo pós-moderno. A discussão gira à volta de questões de género - a representação do corpo feminino e a perspectiva feminina nos seus quadros. Gerda Himmelblau, Directora dos Estudos Feministas, almoça com o professor Peregrine Diss para conversarem sobre a queixa de uma aluna, Peggi Nollett, sobre Diss. Peggi quer escrever uma dissertação sobre "Matisse e o corpo feminino", e não se sente compreendida por Diss, além de que o acusa de assédio sexual. A perspectiva dela é ahistórica e de protesto, está interessada na distorção do corpo feminino na obra de Matisse e na imobilização da mulher, que ela relaciona com a representação de escravas e odaliscas na pintura. Peggi convidou Diss a ver o seu trabalho, no estúdio que lhe serve também de casa, e Diss descreve a Gerda as paredes forradas com cartazes de Matisse manchados com matéria orgânica, que parece ser sangue, ovos e tomate, e grandes suásticas desenhadas com fezes. Gerda argumenta que a arte recente contém elementos de protesto. Discutem a questão do assédio, e Gerda acredita que seja falsa, entre outras coisas, pela descrição de Peggi, feita por Diss, como muito pouco atraente - embora, reflicta ela, o assédio não seja uma questão de atracção, mas sim de afirmação de poder. Finalmente, interrogam-se sobre a razão que terá levado Peggi a escolher Matisse, se o detesta a tal ponto, justamente ela que é anoréctica, depressiva e tem tendências suicidas. Gerda explica que é exactamente essa a razão da escolha - Matisse pinta "luxe, calme et volupté" (título do quadro de Matisse reproduzido em cima). As críticas feministas não gostam do modo como Matisse "expande o erotismo masculino a panoramas plácidos de bem-estar" (MS, p. 116). Os marxistas, por outro lado, criticam a conhecida afirmação de Matisse de sonhar com uma arte feita de equilíbrio, pureza e serenidade, desprovida de qualquer assunto perturbador, uma arte que acalme, uma espécie de poltrona confortável que proporcione descanso. Diss considera esta declaração de Matisse mais provocadora que o trabalho de Peggi, Gerda argumenta tratar-se de uma visão muito limitada. Gerda decide transferir a orientação da tese de Peggi para um(a) professor(a) que seja mais sensível ao projecto dela, ahistórico e de protesto: "a sympathetic supervisor, who cares about political ideologies of that kind" (MS, 126).

 
       Curiosamente, um dos autores que mais se ocupou de Matisse foi justamente um comunista, Louis Aragon. No texto "Apologie du Luxe", de 1946, Aragon refere-se ao ponto de partida de Matisse, os versos do poema de Baudelaire "Invitation au Voyage": "Luxe, calme et volupté". Aragon defende Matisse e diz que tudo depende daquilo que se entende por "luxo", que pode ser o "direito à preguiça" de Paul Lafargue (cf. o seu livro Le droit à la paresse, de 1887), ou talvez mais ainda aquilo que não tem preço. Em qualquer dos casos, se o que se entende por luxo é o contrário de trabalho, seria um crime aplicar o termo a Matisse, que durante 56 anos mais não fez do que trabalhar e criar. Aragon diz que Matisse trabalhava como respirava, quase sem tempo para dormir.

       Crítica em relação a todas as personagens, A. S. Byatt deixa transparecer quão pouco exacto pode ser o "politicamente correcto". Interrogamo-nos, a partir do texto de Byatt, se a perspectiva de Diss não terá sido ultrapassada pelos tempos, e se a de Peggi - para além das características pouco originais e de grande agressividade evidentes no seu "artwork" - não será descontextualizada e superficial. Mas o texto de A. S. Byatt não fornece soluções. Apresenta as contradições da contemporaneidade e, num procedimento muito brechtiano, deixa que seja o leitor a tirar as suas próprias conclusões. O texto de Byatt pode ser entendido como catalisador para uma discussão sobre o que muda nos tempos que mudam sempre, e o que permanece.

       A. S. Byatt afirma que desejaria escrever como Matisse pinta. É verdade que a autora escreve usando, tal como Matisse, aquilo a que poderíamos chamar uma paleta de cores muito vivas. Mas é difícil comparar o método de criação de autores/artistas que usam meios tão diferentes como a literatura e a pintura. A arte de Byatt é muito irónica e crítica, de uma ironia sempre impregnada de grande ternura pelas suas personagens, sempre muito humanas. As três personagens de "The Chinese Lobster", todas tão diferentes, em conflito entre si e consigo próprias, são irmanadas no final pela autora, já que todas elas lutam para se manterem vivas num mundo aparentemente sem sentido. Une-as um contacto mais ou menos directo com suicídio ou tentativa de suicídio nas suas vidas, e o sentido possível da existência, pelo menos para quem lê, parece ser a descoberta desse elo de ligação. A lagosta e os caranguejos, que parecem lutar também pela sobrevivência numa grande montra de vidro à entrada do restaurante chinês, têm no conto a função de metáfora da precária existência humana. As personagens de "The Chinese Lobster" estão tão isoladas e em situações aparentemente tão sem saída como esses animais - o que as distingue deles é só a consciência e o sempre difícil diálogo que a autora esboça entre elas. É interessante verificar que o "fiel da balança" em cada uma das situações de conflito dos três contos é sempre uma figura feminina - quer se trate de Susannah, Debbie ou Gerda, a perspectiva de A. S. Byatt é sempre, para além de irónica, humana e crítica, claramente feminista. O que Byatt mais partilha com Matisse será certamente o lado humano que observámos nas personagens que habitam estes contos, tão presente também no belo texto de Jazz do pintor, nomeadamente na secção dirigida aos jovens pintores.



Bibliografia:

- Aragon, Louis, Henri Matisse - a novel. NY: Harcourt Brace Jovanovich, 1979
 
- Byatt, A. S., The Matisse Stories. NY: Vintage Books, 1996 (no texto como MS, traduções minhas)
 
- Flam, Jack, Matisse in the Cone Collection: the poetics of vision. Baltimore, MD: Baltimore Museum of Art, 2001
 
- Gowing, Lawrence, Matisse. NY, Toronto: Oxford University Press, 1979
 
- Kelly, K. C., A. S. Byatt. NY: Twayne Publishers, 1996
 
- Matisse, Henri, Jazz. NY: George Braziller, 1992


Texto publicado na PNETliteratura a 3 de Julho de 2009
 
 
Retomo hoje aqui um post de 5 de Maio de 2011 do meu blogue Comparatista e Detective.

Matisse em Baltimore III - The Matisse Stories de A. S. Byatt








Matisse em Baltimore III - The Matisse Stories de A. S. Byatt




       A terceira artista da casa, que só no final se revela e é reconhecida como tal, é Mrs. Brown, a funcionária negra da Guiana, o verdadeiro espírito protector e tutelar da casa, o seu totem. Ela acaba por se tornar a personagem central e mais interessante do conto, aliada de Debbie e em constante conflito com Robin. Sheba Brown é descrita como "um génio da justaposição" (Kelly, 59) - ela veste-se de modo surpreendente, usa tecidos floridos, malhas de todas as cores, feitas de restos de lã. Mrs. Brown confecciona a roupa que usa com restos de tecidos e roupas usadas que lhe dão. Quando uma elegante e requintada galerista visita a família Dennison para eventualmente expor a obra de Robin, é Mrs. Brown quem capta a sua atenção e acaba por ser escolhida para expor o seu recém-descoberto "artwork". A família Dennison não fazia ideia de quão pouco ingénua era afinal a arte de tricotar de Mrs. Brown... Sheba Brown pode ser vista como "a recycler of culture, reversing the flow of Western appropriation of the Third World" (Kelly, 58), como recicladora da Cultura Ocidental, retribuindo o gesto ocidental de reciclar a cultura do terceiro Mundo.
       Debbie vê, por acaso, a exposição de Mrs. Brown na galeria de arte, transformada numa "cave de Aladino de cores brilhantes" (MS, 77). Mrs. Brown juntou restos de coisas, roupas da família Dennison, um vestido usado de Debbie, uma gravata que Robin deitou fora, para produzir uma arte de forte conteúdo feminista. Os objectos principais desta cave de Aladino são um dragão enorme, meio animal meio aspirador, feito, entre outros materiais, do vestido usado de Debbie, e uma boneca de trapos, acorrentada em soutiens retorcidos e saiotes. Debbie ainda tenta não falar da exposição ao marido, mas Jamie, um dos dois filhos do casal, chama os pais para ver Mrs. Brown na "telly", descrevendo o que vê como bizarro: "Ela tem uma exposição de coisas que parecem os Marretas, com aquela senhora da galeria que veio aqui a casa, venham ver, Pai, que bizarro!" (MS, 81) Como reacção à exposição e arte de Mrs. Brown, Debbie regressa com sucesso à arte da xilogravura que abandonara, e Robin começa a pintar de modo diferente, usando finalmente alguma emoção. Ambos retratam o rosto de Mrs. Brown, Debbie transformando-a em fada boa / fada má, Robin pintando-a como Kali, a deusa hindu da morte, que pode também significar vida nova (Kelly, 59).
       O conto sugere que a arte contemporânea é algo também de colectivo, produzida por indivíduos em interacção com outros indivíduos, com a sociedade e com as suas instituições de arte. O artista não produz arte só porque assim quer, mas sim quando a sociedade, através das várias instituições ligadas à arte, galerias, museus, críticos e professores de arte, reconhece esse trabalho como tal.

(a continuar)
Bibliografia:

- Byatt, A. S., The Matisse Stories. NY: Vintage Books, 1996 (no texto como MS, traduções minhas)
- Kelly, K. C., A. S. Byatt. NY: Twayne Publishers, 1996


Texto publicado na PNETliteratura a 3 de Julho de 2009
 

 







Matisse em Baltimore II - The Matisse Stories de A. S. Byatt

       Na loja do Museu de Arte de Baltimore encontro a minha trouvaille, ou vice-versa: trata-se do livro de contos The Matisse Stories, de A. S. Byatt, conhecida como autora do romance Possession, vencedor do Booker Prize em 1990 e adaptado ao cinema em 2002. Escritas em 1993, as Matisse Stories são uma homenagem de A. S. Byatt a Matisse, o seu pintor preferido. Na capa, o enigmático quadro do pintor francês Le silence habité des maisons (1947). Os três contos, "Medusa's Ankle", "Artwork" e "The Chinese Lobster", dialogam com três desenhos de Matisse, respectivamente La chevelure (1932), L'artiste et le modèle reflétés dans le miroir (1937), Nymphe et faune (1932), e narram situações do quotidiano - uma professora universitária que vai ao cabeleireiro, um casal de artistas que contrata uma empregada que gosta de fazer malha, e dois professores universitários que discutem o futuro de uma aluna enquanto almoçam num restaurante chinês. Nestes quadros desenham-se tensões que virão a revelar situações insólitas e facetas inesperadas das personagens, desconhecidas até de si mesmas. Os dois primeiros contos partem da descrição de quadros de Matisse, o terceiro discute os próprios fundamentos da arte do pintor.

        "Medusa's Ankle" abre com uma descrição do quadro Pink Nude (1935) de Matisse, no texto designado como "Rosy Nude". Susannah, a professora de Linguística que confia ao cabeleireiro, Lucian, a "desintegração" (Byatt, 7) da sua cabeleira de senhora de meia-idade, não só tem os tornozelos inchados, mas também o poder da Medusa, contido já em potência no monumental nu pintado por Matisse no final de uma longa sequência de variantes. Na senda do ensaio de Hélène Cixous sobre o riso de Medusa, Byatt transforma a personagem de Susannah, no final do conto, numa figura afirmativa, positiva e - poderosa (Kelly, 56).

       Mais estrutural ainda é a relação do quadro Le silence habité des maisons com o conto "Artwork". O misterioso quadro de Matisse é descrito pela voz narrativa que nos introduz no espaço narrativo do conto: um interior que retrata uma mãe e filho debruçados sobre um livro, poisado sobre uma mesa onde há também uma jarra de flores. O insólito do quadro está no facto de as figuras não terem traços fisionómicos, e o livro desmesuradamente grande estar em branco, sem quaisquer caracteres impressos. Mais, todo o interior tem um fundo negro, no qual a custo se distingue o esboço a giz de um círculo em cima de uma haste - um totem? - por cima de uns tijolos. A janela, que ocupa o lado superior direito do quadro, abre para uma paisagem de folhagem e sol, que contrasta com o interior sombrio e estranho e apenas tem afinidade com a jarra de flores e o livro aberto. Interrogamo-nos com a voz que narra: "Quem é o totem que está de vigia por debaixo do tecto?"

       O texto continua a descrever o silêncio da morada do casal de artistas, habitado por sons como o da máquina de lavar roupa e da TV ligada sem ninguém estar a ver. Nesta casa, numa subtil dança de espelhos entre as personagens, vai estar em jogo a criatividade de cada uma delas e no seu conjunto, e vai perspectivar-se uma discussão implícita sobre o conceito de "arte" na sociedade contemporânea (vd. gravura que antecede o conto, L'artiste et le modèle reflétés dans le miroir). Quem é o modelo de quem neste conto? Quem inspira quem, e quem é que estabelece novos padrões artísticos, e baseando-se em que valores? A dedicatória do livro sugere - na emoção: "For Peter, who taught me to look at things slowly - with love." Ver, complementado com sentir. Uma lição que não é de agora e me faz recordar, entre outros textos, a novela Tonio Kröger de Thomas Mann. Olhar as coisas para realmente as ver, significa para A. S. Byatt olhar com tempo, com vagar - na dedicatória parece equivaler a - com emoção. O conceito de obra / trabalho de arte como algo produzido em limites rigorosamente individuais aparece como que desfocado, desestabilizado neste conto, muito apropriadamente intitulado "Artwork".

       "Artwork" usa-se em três acepções: de modo mais geral, "um objecto ou objectos produzidos por artistas"; mais especificamente, "desenhos, fotografias ou ilustrações incluídas num livro ou numa revista"; finalmente, na acepção que apenas encontrei num dos dicionários consultados, "trabalho de artes gráficas ou plásticas, especialmente pequenos objectos decorativos ou artísticos feitos à mão".
       O conto de A. S. Byatt inclui descrições do "artwork" de três personagens: Robin, o marido, o artista mais tradicional, trabalha no andar superior da casa, transformado num estúdio de arte, com o melhor espaço e luz. Nos anos 1960, como o próprio texto diz, Robin era um neo-realista avant la lettre, numa época em que quase toda a pintura era abstracta. Pintava superfícies e objectos em cores neutras, mas nunca nada que tivesse vida. O texto resume a apreciação da arte de Robin: a dois passos do kitsch ("just this side of kitsch"). Debbie, sua mulher, trabalha como editora de design de uma revista significativamente - e em tom de provocação que dá que pensar - chamada A Woman's Place. É ela quem mantém a casa com um bom salário, permitindo a Robin pintar a tempo inteiro. Debbie teve, no entanto, de abandonar a sua própria arte, a xilogravura ("wood engravings") e em silêncio nutre sentimentos contraditórios pelo marido, sobretudo por ele nunca mencionar a arte dela, que assim vai ficando por realizar. Robin é egocêntrico, ocupado só consigo mesmo, sem interesse pelas questões relativas ao governo da casa ou à educação dos filhos (cf. Kelly, 57-59).
 
 
(a continuar)

Bibliografia:
  • Byatt, A. S., The Matisse Stories. NY: Vintage Books, 1996 (no texto como MS, traduções minhas)
  • Flam, Jack, Matisse in the Cone Collection: the poetics of vision. Baltimore, MD: Baltimore Museum of Art, 2001
  • Gowing, Lawrence, Matisse. NY, Toronto: Oxford University Press, 1979
  • Kelly, K. C., A. S. Byatt. NY: Twayne Publishers, 1996 (no texto como Kelly)

Texto publicado na PNETLiteratura a 22 de Junho de 2009