Mostrar mensagens com a etiqueta Les Gommes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Les Gommes. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A procura da verdade na arte em "La Mise à mort" de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha" IV



A procura da verdade na arte em La Mise à mort de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha" IV

 
 
 
 

       Um dos primeiros autores a escrever sobre a faceta analítica do Rei Édipo de Sófocles foi Schiller. Segundo ele, esta tragédia é a recapitulação daquilo que já tinha acontecido quando a peça começa e, não podendo ser modificado, é analisado no decurso da acção. Aproximámo-nos gradualmente da questão central tratada no conto "Oedipe", que tinha já sido aflorada em Rei Édipo e Les Gommes: a realidade da literatura, a liberdade individual e o determinismo são temas que estão aqui intimamente ligados, tal como na tragédia de Sófocles e em Macbeth de Shakespeare. Podemos agora compreender o texto em epígrafe, uma citação do poema "In lieblicher Bläue..." de Hölderlin: o que falta a Oedipe é o direito a escrever a sua própria história, a sua própria vida. O início do conto mostra que o problema central não é aqui o assassínio - as estruturas do romance policial apenas têm significado pela sua ausência, tal como a "carta roubada" de E. A. Poe. Estas estruturas apenas estão presentes em "Oedipe" como um estratagema para mascarar e esconder o tema central do conto: a dignidade e o sentido da literatura, que não podem residir em ser cópia ou reprodução da realidade, como se fossem um "texto reescrito".
 
       A rejeição de um destino pré-determinado corresponde em "Oedipe" à ausência do enigma. A esfinge não faz a Oedipe perguntas ameaçadoras, como no mito clássico (Édipo tem de decifrar o enigma ou morrer), e está em processo de decomposição. A procura da verdade, que no mito de Édipo corresponde ao decifrar do enigma da esfinge, poderá compreender-se neste terceiro "Conto da pasta vermelha" dentro do contexto intertextual.
 
       A recepção do mito de Édipo torna-se clara nesta narrativa de Aragon através da recepção do romance de Robbe-Grillet Les Gommes. Robbe-Grillet transformou a história de Édipo num romance policial. Muitos dos elementos que tinham sido identificados pelos críticos como alusões ao romance da juventude de Aragon Anicet ou le panorama. Roman tornam-se compreensíveis através da mediação de Les Gommes. Robbe-Grillet desenvolveu a faceta policial do mito de Édipo e chamou a atenção na sua história policial para a relação entre a literatura e a realidade. Aragon volta a tratar em "Oedipe" problemas semelhantes, mas recusando a realidade intratextual acentuada por Robbe-Grillet. Neste contexto surge uma narrativa na qual os diferentes elementos do romance policial são utilizados a negativo. "Oedipe" é assim um modelo do género, já que não se sabe quem foi morto nem por quem. Ao passo que normalmente numa narrativa policial se procura o assassino, aqui é o hipotético assassino quem procura a vítima, o motivo, etc. O assassino não sabe quem é que assassinou, nem o motivo ou o local do crime, nem tem a arma.
 
       Todas as expectativas do leitor em relação à tensão criada no romance policial são frustradas desde o início. O assassino nem sequer é um assassino autêntico, é apenas hipotético, e o leitor pode ler todos os seus pensamentos que andam à volta do problema da ausência dos elementos já enumerados. Todas as hipóteses que Oedipe formula acabam por se revelar falsas (o crítico Delf Schmidt interpreta-as como uma paródia das "cenas falsas" do "Nouveau Roman"). O mito de Édipo, que no seu significado mais profundo é tomado a sério, é parodiado no que respeita a pormenores. O Oedipe de Aragon usa óculos escuros, está cego desde o princípio do conto, procura uma vítima como maneira de recalcar a lembrança de ter assassinado o pai, chama-se Eddy, etc. O autor comenta no texto que nada disto tem qualquer verosimilhança. Assim, a paródia simultânea do mito de Édipo e do romance policial no terceiro "Conto da pasta vermelha" apontam para a mediação do romance Les Gommes de Alain Robbe-Grillet.
(a continuar)
 
Imagem e créditos: Alain Robbe-Grillet (halfaya.org)
 
 
Retomo hoje aqui um post de 27 de Junho de 2010 do meu blogue Comparatista e Detective.
 

A procura da verdade em "La Mise à mort" de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha" III



A procura da verdade em La Mise à mort de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha" III


 

3. O romance Les Gommes de Alain Robbe-Grillet. Paródia do romance policial


       Alain Robbe-Grillet resumia assim, nos anos 1950, o seu romance Les Gommes, publicado em 1953: "Trata-se de um acontecimento exacto, concreto, essencial: a morte de um homem. É um acontecimento de natureza policial - quer dizer, há um assassino, um detective, uma vítima. Em certo sentido, os respectivos papéis são mesmo respeitados: o assassino dispara sobre a vítima, o detective resolve o caso, a vítima morre. Mas as relações que os ligam entre si não são assim tão simples. (...) Porque o livro é justamente a narrativa das vinte e quatro horas que decorrem entre o tiro e esta morte, o tempo que a bala demorou a percorrer três ou quatro metros - vinte e quatro horas 'a mais'" (B.M., p. 41). Estas vinte e quatro horas a mais dão, por ex., a tradução do título do romance em língua alemã: Ein Tag zuviel, ou Die Radiergummi.
 
       A epígrafe de Les Gommes aponta, desde logo, para a tragédia grega: "Le temps, qui veille à tout, a donné la solution malgré toi." O crítico Bruce Morrissette aponta, no seu estudo sobre o romance, as semelhanças com o Rei Édipo de Sófocles: o romance tem aquilo que na sua estrutura se assemelha a um prólogo, cinco capítulos que podem corresponder aos cinco actos, e um epílogo. Todos estão recheados de alusões ao Rei Édipo. O destino da personagem principal, um homem que tenta descobrir a identidade de um assassino que é ele próprio, tem origem clara no mito grego. Morrissette enumera ainda outros pormenores que provam a recepção de Sófocles em Les Gommes: a alusão ao enigma da esfinge, o motivo da criança abandonada, os pés inchados de Wallas, e várias alusões ao nome Oedipe.
 
       Robbe-Grillet acentuou neste romance os elementos que ligam Rei Édipo ao romance policial moderno. O crime cometido por Édipo é passado, mas mostrado como presente. Em Les Gommes não há nenhum crime que exista fora da história, nenhum facto que a preceda e que tenha de ser investigado e descoberto. São as vinte e quatro horas do relato que criam essa própria realidade. Robbe-Grillet pronunciou-se em vários escritos sobre esta questão, p. ex. no artigo "Du réalisme à la réalité", no qual se distancia da crítica académica, quer ocidental quer dos países à época comunistas, por empregarem a palavra "realismo" como se a realidade fosse um dado adquirido quando o escritor entra em cena. O papel deste seria assim apenas explorar ou exprimir a realidade da sua época. Ou ainda no artigo "Temps et description dans le récit d'aujourd'huit", afirmando que a obra não é um testemunho sobre a realidade exterior, mas sim ela mesma a sua própria realidade (ambos os textos em Pour un nouveau roman, 1963).
 
       O problema que preocupa Robbe-Grillet é o mesmo tema de fundo de "Oedipe", ainda que a forma e as soluções apontadas pelos dois escritores sejam diferentes. Robbe-Grillet dá ao problema a dimensão da arte moderna: "O verdadeiro, o falso e o fazer-de-conta tornaram-se mais ou menos o assunto de toda a obra moderna. Em vez de ser um pedaço de realidade a fingir, a obra de arte moderna desenvolve-se como reflexão sobre a realidade (ou sobre o pouco de realidade, como se queira). Já não procura esconder o seu carácter necessariamente mentiroso, apresentando-se como uma história vivida." (PuNR) Atente-se nos paralelos com a concepção de Aragon em La Mise à mort da arte narrativa como jogo de "Let's pretend" ou como "Mentir-Vrai". Trata-se, assim, da acentuação do poder singular da literatura e do seu efeito. Ambas as figuras de Édipo, a clássica e a de Robbe-Grillet, são provas da arte de persuasão do "récit". O real e o imaginário estão aí indissoluvelmente ligados. O romance de Robbe-Grillet L'année dernière à Marienbad, do qual resultou, em colaboração com Alain Resnais, o filme com o mesmo nome (1961), seria disto o exemplo acabado. Todo o filme é a história de uma persuasão, o herói vai criando uma realidade através da palavra. O poder especial da narrativa em Rei Édipo é acentuado por Gérard Genette, que argumenta que se Édipo pôde fazer aquilo que todos apenas desejam, é porque um oráculo contou antecipadamente que ele um dia mataria o pai para casar com a mãe: "sem oráculo, não haveria exílio, nem Édipo estaria incógnito, não haveria parrícidio nem incesto. O oráculo do Rei Édipo é uma narrativa metadiegética no futuro, cuja enunciação vai desencadear uma 'máquina infernal' capaz de o realizar. Não é uma profecia que se realiza, mas antes uma armadilha em forma de narrativa, e que resulta."
 
(a continuar)
 
Imagem e créditos: Alain Robbe-Grillet (enjoyfrance.com)
 
Bibliografia secundária seleccionada:
 
Alain Robbe-Grillet, Pour un nouveau roman. Paris, 1963
Bruce Morrissette, Les romans de Robbe-Grillet. Paris, 1963
Gérard Genette, Figures III. Paris, 1972
 
Retomo hoje aqui um post de 20 de Junho de 2010 do meu blogue Comparatista e Detective.