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domingo, 2 de fevereiro de 2014

A procura da verdade na arte em "La Mise à mort" de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha V













 
 
A procura da verdade na arte em La Mise à mort de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha" V

 
       O resultado da procura em "Oedipe" - a interferência de Anicet - permanece no domínio intra-textual: Oedipe encontra o crime que cometera na descrição feita por Anicet do assassínio do Professor Omme (esta figura representava Paul Valéry), e censura-se a si próprio pela falta de originalidade. O conto afirma deste modo os direitos da invenção na arte e mostra simultaneamente a sua insuficiência. Por um lado, reconhece-se o papel da fantasia, da hipótese, por outro lado rejeita-se a "fantasia pura", i.e., a fantasia desligada da realidade. Esta rejeição da procura dos sentidos na imanência do texto ou da arte mostra, de forma semelhante, a colagem Oedipe de Max Ernst, de 1931. Os surrealistas desenvolveram novas relações entre as artes, nomeadamente entre a poesia e a pintura, através da sua teoria da imagem. O interesse pela pintura é uma constante da obra de Aragon, desde o texto que escreve para a exposição de Max Ernst La peinture au défi, de 1930, passando pela personagem de Géricault no romance La semaine sainte, até à obra de maturidade Henri Matisse Roman. Max Ernst veio para Paris, deixando o movimento Dada de Colónia, e ajuda a escrever a história do surrealismo na área da pintura e artes gráficas com um dos mais originais contributos para a destruição da obra de arte individualista e orgânica (vd. Barck).
       Aragon teria bem presente, com toda a probabilidade, esta colagem de Max Ernst ao escrever "Oedipe", o "Terceiro conto da pasta vermelha". Werner Spiess comenta sobre a colagem de Max Ernst que a confrontação mítica entre Édipo e a esfinge é transformada num só ser. Se tomássemos como ponto de partida nos quadros de Ingres ou de Moreau a antinomia dos géneros, poderíamos concluir agora que essa antinomia é substituída pela ficção andrógina. Mas penso que vale a pena compreender a colagem de Max Ernst num outro contexto: ao reunir pergunta e resposta num só ser, cria um símbolo para a sua obra, que não apela a ser decifrada como enigma, já que a pergunta, cuja resposta se procuraria, falta, não existe. É evidente o paralelismo com o aforismo de Wittgenstein ("Para uma resposta que não pode ser formulada, não pode igualmente formular-se a pergunta"), de que este ser andrógino parece ser uma ilustração. É que o sentido conhecido, o significado, do qual se parte para a formulação / invenção do enigma, é inexistente.
 
       O mesmo acontece em "Oedipe", no qual está ausente um sentido imanente ao texto - apenas lá está pela sua ausência, e tem de ser criado pelo leitor no acto da leitura. Assim são ultrapassados quer a transcendência, quer o sentido trágico e absurdo da existência humana. Perspectivada de modo crítico é também a tendência surrealista para conceber a vida como enigma metafísico. Anicet distancia-se também quer do "acte gratuit" de Gide, quer do conceito de "absurdo" de Camus. Werner Spiess interpreta a colagem de Max Ernst como "alegoria da ontologia do factual" - este ser siamês constituído por pergunta / resposta é uma figura que impede a fuga em direcção a uma interpretação hermética ou de cariz religioso.
 
       Quer a colagem de Max Ernst, quer o conto de Aragon surpreendem e chocam o leitor e estimulam-no deste modo distanciador a pensar mais além. O resultado intra-literário da procura em "Oedipe" não é suficiente e tem de ser colocado, para ser compreendido, num contexto extra-literário. Recorde-se o final de Anicet: Anicet não consegue estabelecer uma relação com Mirabelle. A hipotética "solução" oferecida em ambos os casos é determinada negativamente no texto / quadro e precisa de ser desenvolvida de modo positivo pelo leitor na esfera extra-textual.
Nota final da autora: a sequência de textos que tenho vindo a apresentar neste blogue baseia-se num dos capítulos da tese que preparei de 1980 a 1983 e defendi em Abril de 1984 na Universidade Humboldt de Berlim, intitulada Aragons La Mise à mort und die Rezeption romantischer Motive. Os meus orientadores foram o Prof. Dr. Manfred Naumann, da então "Akademie der Wissenschaften", a Prof. Drª Rita Schober e o Prof. Dr. Siegfried Streller, da Universidade Humboldt.
 
Bibliografia seleccionada
 
Karlheinz Barck, "Differenzierung der Beziehungen zwischen künstlerischer und politischer Avantgarde. Blickrichtung: französischer Surrealismus". In: Künstlerischer Avantgarde. Berlin, 1979
Werner Spiess, Max Ernst - Collagen. Inventar und Widerspruch. Köln, 1975 (2ª edição)
 
Créditos das imagens:
Max Ernst, Das Innere der Sicht (Oedipus), 1931, http://www.derkunstblog.blog.de/




Retomo hoje aqui um post de 13 de Julho de 2010 do meu blogue Comparatista e Detective.

A procura da verdade na arte em "La Mise à mort" de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha" IV



A procura da verdade na arte em La Mise à mort de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha" IV

 
 
 
 

       Um dos primeiros autores a escrever sobre a faceta analítica do Rei Édipo de Sófocles foi Schiller. Segundo ele, esta tragédia é a recapitulação daquilo que já tinha acontecido quando a peça começa e, não podendo ser modificado, é analisado no decurso da acção. Aproximámo-nos gradualmente da questão central tratada no conto "Oedipe", que tinha já sido aflorada em Rei Édipo e Les Gommes: a realidade da literatura, a liberdade individual e o determinismo são temas que estão aqui intimamente ligados, tal como na tragédia de Sófocles e em Macbeth de Shakespeare. Podemos agora compreender o texto em epígrafe, uma citação do poema "In lieblicher Bläue..." de Hölderlin: o que falta a Oedipe é o direito a escrever a sua própria história, a sua própria vida. O início do conto mostra que o problema central não é aqui o assassínio - as estruturas do romance policial apenas têm significado pela sua ausência, tal como a "carta roubada" de E. A. Poe. Estas estruturas apenas estão presentes em "Oedipe" como um estratagema para mascarar e esconder o tema central do conto: a dignidade e o sentido da literatura, que não podem residir em ser cópia ou reprodução da realidade, como se fossem um "texto reescrito".
 
       A rejeição de um destino pré-determinado corresponde em "Oedipe" à ausência do enigma. A esfinge não faz a Oedipe perguntas ameaçadoras, como no mito clássico (Édipo tem de decifrar o enigma ou morrer), e está em processo de decomposição. A procura da verdade, que no mito de Édipo corresponde ao decifrar do enigma da esfinge, poderá compreender-se neste terceiro "Conto da pasta vermelha" dentro do contexto intertextual.
 
       A recepção do mito de Édipo torna-se clara nesta narrativa de Aragon através da recepção do romance de Robbe-Grillet Les Gommes. Robbe-Grillet transformou a história de Édipo num romance policial. Muitos dos elementos que tinham sido identificados pelos críticos como alusões ao romance da juventude de Aragon Anicet ou le panorama. Roman tornam-se compreensíveis através da mediação de Les Gommes. Robbe-Grillet desenvolveu a faceta policial do mito de Édipo e chamou a atenção na sua história policial para a relação entre a literatura e a realidade. Aragon volta a tratar em "Oedipe" problemas semelhantes, mas recusando a realidade intratextual acentuada por Robbe-Grillet. Neste contexto surge uma narrativa na qual os diferentes elementos do romance policial são utilizados a negativo. "Oedipe" é assim um modelo do género, já que não se sabe quem foi morto nem por quem. Ao passo que normalmente numa narrativa policial se procura o assassino, aqui é o hipotético assassino quem procura a vítima, o motivo, etc. O assassino não sabe quem é que assassinou, nem o motivo ou o local do crime, nem tem a arma.
 
       Todas as expectativas do leitor em relação à tensão criada no romance policial são frustradas desde o início. O assassino nem sequer é um assassino autêntico, é apenas hipotético, e o leitor pode ler todos os seus pensamentos que andam à volta do problema da ausência dos elementos já enumerados. Todas as hipóteses que Oedipe formula acabam por se revelar falsas (o crítico Delf Schmidt interpreta-as como uma paródia das "cenas falsas" do "Nouveau Roman"). O mito de Édipo, que no seu significado mais profundo é tomado a sério, é parodiado no que respeita a pormenores. O Oedipe de Aragon usa óculos escuros, está cego desde o princípio do conto, procura uma vítima como maneira de recalcar a lembrança de ter assassinado o pai, chama-se Eddy, etc. O autor comenta no texto que nada disto tem qualquer verosimilhança. Assim, a paródia simultânea do mito de Édipo e do romance policial no terceiro "Conto da pasta vermelha" apontam para a mediação do romance Les Gommes de Alain Robbe-Grillet.
(a continuar)
 
Imagem e créditos: Alain Robbe-Grillet (halfaya.org)
 
 
Retomo hoje aqui um post de 27 de Junho de 2010 do meu blogue Comparatista e Detective.
 

A procura da verdade na arte em "La Mise à mort" de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha" II










 

A procura da verdade na arte em La Mise à mort de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha" II
 
 
2. A recepção do mito de Édipo. Simbolismo da luz e sombra. A dimensão psicológica
 
 
A tragédia Rei Édipo de Sófocles contém um simbolismo que a liga não só a Oedipe, mas a todos os três contos da pasta vermelha (também a Murmure e a Le Carnaval): o simbolismo da luz e sombra. A luz significa no contexto dos três contos a verdade, a sombra significa o momento, em que, de olhos fechados, se acede à verdade. A escuridão significa, neste contexto, a ficção, que tem o poder de, por sua vez, criar luz.

No Rei Édipo a figura do adivinho Tirésias representa a sabedoria, que é capaz de ver mais claramente na sombra do que na luz. Todo um encadeamento metafórico à volta desta oposição percorre o trágico caminho de Édipo em direcção à verdade.

Desde Freud, é inevitável associar o nome de Édipo não só à peça de Sófocles, mas também ao "complexo de Édipo". Este consiste no desejo inconsciente do menino que desejaria matar o pai, para ficar com a mãe só para si. O terceiro e último conto da pasta vermelha, Oedipe, conclui convincentemente, como investigação do inconsciente, o conjunto dos três contos da pasta vermelha. A tentativa de Oedipe de se recordar do que aconteceu pode mesmo interpretar-se como ilustração irónica da conhecida máxima de Freud para o processo de tomada de consciência - "Wo Es war, soll Ich werden". A inclusão do conto na estrutura da história de amor do romance - Alfred tomou a decisão de matar o seu rival Anthoine - faz aparecer a uma luz irónica a dimensão freudiana do mito de Édipo. A mediação de Lacan, cujo Séminaire sobre o conto de E. A. Poe The Purloined Letter é igualmente importante em Oedipe, começa a tornar-se nítida no texto. Mas como a personagem de Édipo criada por Aragon deve ser vista sob uma perspectiva crítica, as claras alusões ao mito de Édipo no sentido freudiano devem ser entendidas como ironia. Se queremos chegar a uma interpretação adequada de Oedipe, temos de ultrapassar a perspectiva meramente psicológica.

 
(a continuar)
Imagem: Louis Aragon
 
Créditos da imagem: http://www.leninimports.com/
 

A procura da verdade na arte em La Mise à mort de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da Pasta Vermelha" I











 

 
A procura da verdade na arte em La Mise à mort de Louis Aragon - "Oedipe", o terceiro "Conto da pasta vermelha" I




 
1. Introdução
 
O capítulo "Oedipe" encontra-se no longo romance de 1965 La Mise à mort (em Portugal traduzido como Condenação à morte), que marca o início da fase estruturalista na produção de Louis Aragon. O autor repensa todo o seu percurso literário desde o movimento Dada, passando pelo surrealismo e realismo socialista, até 1965. Traça um retrato ficcional do seu itinerário e reequaciona sobretudo a ruptura com o movimento surrealista. Para isso, recorre a um movimento que conhecia bem, o romantismo alemão. Aragon era médico de profissão, sabia falar alemão e era profundo conhecedor da cultura alemã, que irá defender nos anos da Resistência como a "Alemanha dos pensadores e poetas". Em La Mise à mort, esta temática será ilustrada através do uso e mudança de função de motivos tradicionais do romantismo alemão, nomeadamente o motivo do espelho, da sombra e do duplo ("Doppelgänger"). A redescoberta do passado surrealista e a investigação do seu significado assumem em La Mise à mort a forma de busca da verdade a três níveis: a verdade histórica no capítulo "Murmure", a verdade individual no capítulo "Le Carnaval", e a verdade da arte em "Oedipe".
 
O texto de "Oedipe" é tão difícil de ler, que uma das primeiras analistas deste romance, Sophia Bibrowska, afirma ser produto de um cérebro doente, interpretando o capítulo como "grito desesperado de loucura" e "mascarada louca de marionetas sem nexo". Wolfgang Babilas vê neste Édipo o homem típico da era (anos 1960), e Delf Schmidt acentua a dimensão política do conto e classifica-o como a peça mais hermética da produção tardia de Aragon. Devido a este carácter difícil de decifrar, "Oedipe" é normalmente visto como continuação do romance da fase surrealista Anicet ou le Panorama, Roman, e como regresso à escrita automática que era própria do surrealismo.
 
Tentarei mostrar na minha análise que a relação de "Oedipe" com Anicet é de ordem mais subtil do que o mero retomar da escrita e temática surrealista. Aragon trata em "Oedipe", de modo altamente elaborado, o problema da verdade na arte e traça a problemática do poder de invenção e antecipação da literatura. O complexo sistema interior de espelhos em "Oedipe" - i.e., os vários níveis simultâneos de alusões, e os diferentes contextos - fazem, de facto, este conto parecer um texto hermético, de interpretação impossível. No que se segue tentarei mostrar que "Oedipe" é uma obra-prima de reflexão meta-literária.
 
(a continuar)
 
 
Bibliografia secundária seleccionada:
 

Ana Maria Delgado, Aragons 'La Mise à mort' und die Rezeption romantischer Motive. Diss. Universidade Humboldt de Berlim, 1984
 
Delf Schmidt, Aragon. Zur Konzeption des sozialistischen Realismus in seinem Werk. Hamburg, 1980
Sophia Bibrowska, Une mise à mort. L'itinéraire romanesque d'Aragon. Paris, 1972
 
Wolfgang Babilas, Le collage dans l'oeuvre critique et littéraire d'Aragon. In: Revue des Sciences Humaines, 151, 1973
 
Imagens e créditos:
 
Max Ernst, Das Innere der Sicht (Ödipus), 1931 (O interior da visão, Édipo) (http://www.derkunstblog.blog.de/)
Gustave Moreau, Oedipe et le Sphinx (1864) (allposters.de)
 
Jean-Auguste Ingres, Oedipe et le Sphinx (1808) (allposters.de)